Em 26 de agosto o site da Mutagex trocou o jeito de medir visita por anúncio. O pixel da Meta, o evento de Lead e a API de Conversões (que manda o mesmo evento direto do servidor) passaram a medir todo mundo que não clicasse em "recusar" no aviso de cookie. Em 9 de outubro voltamos atrás: agora só mede quem clica em "aceitar". Entre uma data e outra, o motivo de ida e o motivo de volta foram registrados nos dois commits que fizeram a mudança, e os dois motivos são reais, então vale contar os dois.

O que muda na prática

Com opt-in, visitante que nunca decide (não aceita, não recusa, simplesmente navega e sai) não entra em nenhuma métrica do pixel. Com opt-out era o oposto: só quem clicava em "recusar" ficava de fora, e recusar continuava a um clique de distância, mas a maioria de quem nunca decide qualquer coisa num banner de cookie ficava medida por padrão. A diferença entre os dois modelos não é sutil nem cosmética: é a base legal inteira que muda de lado.

Por que fomos para opt-out em agosto

A pedido de quem cuida da mídia paga da Mutagex, o motivo registrado foi não perder visualização de página de quem nunca decide no banner. Esse pedido tem lógica de negócio: campanha paga pelo clique, e se boa parte de quem clica nunca aceita nem recusa o cookie, o painel de resultado da campanha mostra menos gente do que de fato chegou na página. A base legal usada em agosto foi o legítimo interesse (inciso IX do Art. 7º da LGPD, a Lei 13.709/2018), com o direito de oposição do Art. 18 como contrapeso: a pessoa podia recusar a qualquer momento, só não precisava agir primeiro para ser medida.

Por que voltamos em outubro

O commit de 9 de outubro registra a decisão com uma frase direta: medir só depois do aceite do cookie. Nenhum motivo além dela está escrito na fonte, mas o código novo cita o pano de fundo: a base legal trocou de legítimo interesse para consentimento (inciso I do mesmo Art. 7º).

Essa troca de base legal não é um detalhe técnico qualquer. A Lefosse, banca de advocacia especializada em direito digital, revisou o guia orientativo que a ANPD (a Autoridade Nacional de Proteção de Dados, o órgão que fiscaliza a LGPD) publicou em outubro de 2022 especificamente sobre cookies. A leitura da banca sobre a posição da autoridade é direta: legítimo interesse pode sustentar cookie estritamente necessário ou cookie de medição de audiência em alguns contextos, mas dificilmente sustenta cookie de publicidade, porque aí a base mais adequada passa a ser o consentimento. Pixel de anúncio e evento de conversão de campanha são exatamente esse caso: servem para publicidade, não para o site funcionar nem para medir audiência em geral.

O custo, admitido na hora

Nenhuma das duas decisões fingiu que o lado perdido não existe. Em agosto, o custo do opt-in antigo foi escrito como perda de visualização para quem nunca decide. Em outubro, o custo do opt-in novo foi escrito do mesmo jeito, no mesmo commit que fez a troca: quem nunca aceita volta a não ser medido, e a campanha volta a ver menos visualização da própria landing page. É o mesmo número, incomodando o lado contrário da mesma decisão duas vezes.

O que ainda ficou pendente

Uma pergunta ficou sem resposta no commit seguinte à mudança de outubro: o que fazer com o histórico medido em opt-out entre 26 de agosto e 9 de outubro. A política de privacidade do site passou a descrever só o modelo de agora, e o período anterior fica para decisão posterior. Registrar essa pendência em aberto, em vez de responder por conta própria o que ninguém decidiu, é a mesma regra que vale para qualquer número deste blog: ausência de decisão não vira decisão inventada.

Por que isso importa pra quem não é a Mutagex

Quase toda empresa que chega até este blog roda, ou pensa em rodar, anúncio pago no Instagram com formulário nativo ou pixel de conversão. A mesma escolha que fizemos no nosso site (medir todo mundo por padrão, ou medir só quem decide aceitar) está dentro de qualquer conta de anúncio que usa pixel ou API de Conversões. Ela não é uma caixinha que se marca uma vez e esquece: é uma decisão com um lado jurídico (qual base legal sustenta medir aquele visitante) e um lado comercial (quanto da campanha o painel de resultado deixa de contar), e as duas pontas puxam para direções opostas. Trocar de lado depois, como fizemos, custa dois commits e uma política de privacidade reescrita. Decidir direito desde o início custa uma conversa de dez minutos antes de instalar o pixel.